CHEGAREMOS A EXHIBIR SERES H-URBANOS…?

  1. TEMA: MEMÓRIAS DE UMA INTERVENÇÃO URBANA.

 

 

  Carolina Dardi

arquiteta urbanista.

Facultad de Arquitectura,

Planeamiento y Diseño.

Universidad Nacional de Rosario.

UNR. Argentina

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  1. OBJETIVOS

 

  • Objetivo geral

Os objetivos são decorrentes da análise da realidade depois de uma intervenção urbana e dos posicionamentos assumidos que expressam as finalidades de esta ação urbana e social; será baseado em como se construi uma concepção do espaço público.

  • Objetivo específicos

–  Qual e a relação entre o projetado e a realidade depois de uma intervenção urbanístico-social;

–  Que acontece tempo depois com esses espaços projetados;

–  Como a população local vive estes espaços;

– Buscar uma articulação entre as dimensões do projetual, o executável e as escutas das demandas.

  1. JUSTIFICATIVA

A explosão de moradia informal no Rio de Janeiro e os consequentes problemas quanto à habitação, resultaram em intervenções por parte do governo Estadual, Federal e Municipal junto à empresas privadas, somadas a eminente “pacificação” tornando essas áreas, muitas delas como parte do “combo“ 2014-16, objetos de procura por uma vasta congregação de turismo e cidadania em geral.

“…O cartel avisa que está proibido tirar fotografias. Objetos, salas, pessoas, nada pode ser fotografado. A menina está sentada no pátio do museu, em Sucre. Cochila com a cabeça apoiada sobre seu telar. Metonimicamente, a menina representa uma “cultura sobrevivente”, uma “tradição” mais “genuína” e mais “pura” que foi “resgatada” dos embates da “civilização”, da “modernidade”, do “ocidente”, por etnógrafos, organismos estatais e promotores turísticos. Esta cultura que sobrevive difere da cultura daqueles que tem sentado aí a menina: a cultura dos antropólogos que dirigem o museu, a cultura dos visitantes que abonam seu bilhete de ingresso para observar essas culturas sobreviventes. (Pissarro, Marcelo. Revista Ñ. Jornal Clarin. Argentina. 2012).

Desejo partir do descontentamento, do descontentamento das coisas que nos rodeam, quando existem crises de ideias, de sistemas, de poderes, de representação, neste estado de coisas, os valores tradicionais como a ordem, a estabilidade, a segurança, a comodidade, a certeza e suas representações, ficam superadas por estes acontecimentos, desejo partir de uma abstração sensível para uma abstração analítica.

Como cita Henri Lefevbre, a cidade historicamente formada não vive mais, não é mais apreendida praticamente. Não é mais do que um objeto de consumo cultural para os turistas e para o esteticismo, ávidos de espetáculo e do pitoresco. Mesmo para aqueles que procuram compreende-la calorosamente, a cidade está morta. No entanto o “urbano” persiste, no estado de atualidade dispersa e alienada, de embrião, de virtualidade. (Lefevre, Henri. O Direito à Cidade. São Paulo: Centauro, 2001).

Quando se intervém urbanisticamente estes espaços, primeiro espontâneos, depois formais,  alguns adquirem uma característica, uma identidade própria; este espaço começa a se trasnformar, se urbanizar, onde confluem diferentes línguas, idiossincrasias, interesses e domínios.  Produto deste processo um “não lugar” se transforma em espaço de aproximação e interação, gerando possibilidade de intercâmbio; uma ligação intracultural de encontrar caminhos de comunhão, desde um espaço que vira mirante aberto ao turismo numa favela, passando por uma área “requalificada” em cultural no centro da cidade ou uma “cracolândia” na zona norte de Rio de Janeiro, estas se articulam como conexões socio-culturais entre as diferentes “urbes- urbanas” que compõem a cidade.

Estes espaços, antes próprios do morador do lugar, onde as relações eram abrangentes à vizinhança, transformam-se numa área que atrai pessoas de outros lugares, de outras “tribos urbanas”; aparece o valor agregado do solo; quando o espaço começa a não ser um lugar de convergências comuns, é parte do circuito etnográfico que o visita.

Durante toda a vida Julio Cortazar esteve sentindo e pensando outra cidade, que era e não era a que então habitava e, essas duas cidades, entre as muitas que percorreu, não deixaram de ser quase sempre, as mesmas.

  1. ABORDAGEM TEÓRICO-METODOLÓGICA

Hoje em dia a investigação e os intentos de materializar formas de organização físico-espaciais esquecem a condição própria do ser humano, como condicionante de tais atos.

Nesse contexto é onde quero me focar numa singularidade, num local no Complexo do Manguinhos, um conjunto de 13 favelas na zona norte de cidade de Rio de Janeiro, onde existia um espaço urbano estancado ao longo das antigas trilhas do trem, onde os cadáveres eram jogados por conta de ajustes de contas entre as facções rivais da comunidade, Comando Vermelho, Terceiro Comando e Amigos dos Amigos, um espaço chamado de “Faixa de Gaza”.

No ano 2006 e, sendo parte do Favela Bairro, é lançado pelo governo um programa para requalificar a área, surgindo o Plano de Desenvolvimento Sócio-espacial onde participei como urbanista junto ao escritorio do arq. Jorge Mario Jauregui, o conceito foi “dissipar” aqueles limites não físicos se não virtuais de divisão do solo transformando esse local  num “parque linear de convivência” que por meio da integração social gerara novos âmbitos de vida cívica.

Quero colocar ênfase em como a comunidade local na atualidade, depois da intervenção urbana,  faz a narrativa desses espaços, como os sente, quais são as memórias do lugar, como estão ancoradas no espaço, quais são as significações construidas, que tipo de apagamento dessas memórias estes projetos urbanos propõem. A memòria social é uma identidade imanente que se encontra em movimento constante. Desejo trabalhar nessa resignificação do espaço que atrai novos habitantes, novas relações sociais, incluindo o turismo.

Jorge Luis Borges recorre a uma metáfora para falar da fundação mítica da sua cidade. Ele diz, em “Palermo de Buenos Aires” que: “afortunadamente o copioso estilo da realidade não é o único, há também o da lembrança cuja essência não é a ramificação dos fatos, senão a perpetuação de traços isolados” e, mais à frente, “recuperar essa quase imóvel pré-história seria tecer insensatamente uma crônica de infinitesimais processos”.

É necessário ter uma ecologia conceitual onde os espaços não apareçam em função da necessidade e sim, em função do desejo, os lugares tem que ser para o encontro, para o intercâmbio de saberes culturais, onde “se consuma o lugar e não o lugar seja um lugar de consumo”.

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